Publicado em 05.10.2017 - Parceria Escola-Família - Sem comentários

espera

Os modelos familiares são de grande e decisiva importância em todo o desenvolvimento infantil;
tal influência é ainda mais notável durante os dez primeiros anos de vida.

Ainda existem, infelizmente, pessoas que pensam que crianças não percebem as coisas que acontecem a sua volta, não ouvem os comentários dos adultos, nem aprendem a partir dos modelos de comportamentos de seus pais. Todo ser humano, pleno em suas capacidades, nasce apto a iniciar uma forma de comunicação com o ambiente. A criança, por exemplo, mostra por meio do choro seu desconforto, suas necessidades primordiais, e aprende que há como suprir uma falta a partir dessa comunicação, e assim vai estruturando seu comportamento.
A partir do nascimento, o bebê observa o meio que o cerca e começa a estabelecer contato, principalmente, por meio da mãe. Assim, inicia essa relação quando percebe que obtém a satisfação de suas necessidades e é atendido prontamente a partir do choro: com ele, vêm a atenção, o colo, o carinho, a higiene, o alimento e o conforto.
Aprende, após sentir suas necessidades ou desejos satisfeitos, como resolver seus problemas novamente, no futuro. Se for atendido sempre muito rapidamente, vai perceber que é assim que as coisas acontecem com ele e não conseguirá esperar em uma próxima ocasião. Se, por vezes, a mãe demorar um pouquinho mais do que em outras situações anteriores, aprenderá que pode esperar. Se raramente for atendido, ficará confuso, se sentirá abandonado e poderá até adoecer.

Se a criança, ao longo do crescimento, é sempre atendida muito prontamente – quando não haja
urgência – não desenvolve a tolerância e, pior, torna-se eternamente insatisfeita.

Se um pequeno lapso de tempo transcorre entre o reclamar e o ser acolhida, a criança vai percebendo o que é esperar, mas, por vivências anteriores, confia que será atendida, embora tenha que aguardar um tempo. Isso não é fácil, é um aprendizado primordial e, muitas vezes, por não querer que o filho chore, os pais não o ensinam, desde cedo e de modo natural, a esperar.
Caso, no decorrer do crescimento, a criança seja sempre atendida muito prontamente, caso não haja um tempo mínimo de espera para seus desejos serem realizados, ou se o são antes mesmo que ela os perceba, acabará por não desenvolver a tolerância e, pior, não sentirá falta de nada. Portanto, sempre atendida, não consegue distinguir seus reais desejos e necessidades e não aprende como deveria. Torna-se, assim, eternamente insatisfeita, comportamento que se disseminará em todas as áreas de sua vida.
Vivemos em uma sociedade muito diversa daquela da geração dos pais e avós dos pré-escolares de hoje: a profusão de possibilidades. A oferta de produtos extremamente sedutores aos olhos infantis chega por todas as vias: televisão, internet, propaganda de rua, shopping, amiguinhos que usam ou possuem. Realmente, há um mar de apelos!
Aí entra o adulto que, hoje, se sente duplamente constrangido frente a esses pedidos. De um lado, sabe que deve educar, dar limites, mas, de outro, está fragilizado perante uma posição múltipla de dúvidas: ou crê que fica pouco tempo com seu filho e acha que satisfazer suas vontades pode fazê-lo menos frustrado, ou crê que seu filho, ao possuir muitas coisas, se eleva a uma condição social melhor do que a sua e, assim, tem mais chances de ascender a futuras posições de sucesso. Tais adultos agem como se marcas de tênis, de camiseta e os brinquedos mais atuais agissem como um cordão de ligação entre a realidade familiar e um mundo muito mais promissor e feliz…
Pesquisas recentes, realizadas pelo SPC Brasil e pela Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas, mostraram que cerca de 64% das mães não resistem a satisfazer a vontade dos filhos, fazendo compras desnecessárias, e correm o risco de comprometer o orçamento doméstico. Além disso, 46% não impõem regras para presenteá-los.
Serão essas crianças mais felizes ou esses lares mais harmoniosos? Não é o que vemos acontecer. Até pelo contrário, ao receber um presente após o outro, a criança não aprende a usufruir do prazer de explorar algo desejado, nem a aproveitar tudo o que o brinquedo pode lhe oferecer. Insatisfeita, logo passa a querer outro, mais outro e, passada a alegria do desembrulhar do pacote, o descontentamento, a frustração e a falta de motivação para conquistar coisas por si mesma voltam.
E há consequências de toda ordem: esse modo de agir acaba contaminando a escolaridade, em que, não havendo tanto prazer, a criança se desmotiva e deixa de aprender como sua capacidade cognitiva permitiria.
Disso se tira mais uma conclusão importante para a atualidade: não se cria, dessa forma, um consumidor consciente. O modelo familiar influi muito, assim como a maneira como a criança foi criada desde o berço. Impulsividade nas compras e compulsividade mostram ser falhas educativas muito sérias ao longo da vida.
O ato de comprar requer aprendizado que passa pela maneira como a criança é presenteada. Por mais que os pais queiram ou disponham de recursos para adquirir lindos e numerosos presentes, é preciso repensar o que as compras frequentes, algumas absolutamente dispensáveis, ensinam aos pequenos.
Provavelmente, é assim que muitas crianças se tornam compradoras compulsivas, eternamente insatisfeitas, adolescentes sem limites, sem noção de preço e, principalmente, de valores.

Maria Irene Maluf é especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Neuroaprendizagem.
Foi presidente nacional da Associação Brasileira de Psicopedagogia – ABPp (gestão 2005/07).
É editora da revista Psicopedagogia da ABPp e autora de artigos em publicações nacionais e internacionais.
Coordena curso de especialização em Neuroaprendizag


 

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