Publicado em 14.11.2017 - Parceria Escola-Família - Sem comentários

empatia rua

Veja como você pode estimular comportamentos mais sociáveis,
promover a gentileza e ajudar a criar uma geração mais sensível e preocupada com o outro.

Conectar-se com outra pessoa, captar o que ela está sentindo, colocar-se em seu lugar e fazer o que for possível para ajudá-la. Esses são alguns dos princípios básicos da empatia, tema central do livro de Michelle Borba, uma autoridade quando se fala em educação infantil. Pedagoga, especialista em parenting e autora premiada, com 22 livros publicados sobre temas que vão de bullying a autoestima, ela lançou Unselfie, why emphatetic kids succeed in our all-about-me world (Unselfie, por que crianças empáticas se dão bem em um mundo egocêntrico, em tradução livre), ainda sem título em português. Michelle defende que crianças ensinadas a terem empatia desenvolvem uma identidade moral, são gentis, pensam mais no coletivo e têm grandes chances de se tornarem agentes de mudança no futuro. Mas não é só isso. O livro reúne pesquisas mostrando que até a saúde dos pequenos sai beneficiada quando a capacidade é estimulada desde cedo. E, não há outra maneira senão ensinar esse comportamento ao seu filho da mesma forma que você o ensinou a ler, a falar e a andar de bicicleta: com paciência, treino e exemplo! Michelle deu algumas dicas para os pais colocarem em prática.

O que a inspirou a investigar a empatia?
Comecei a ver estatísticas perturbadoras sobre a juventude de hoje vivendo em sociedades mais industrializadas. Atualmente, parece que as crianças têm uma identidade moral mais fraca e são menos propensas a considerarem as preocupações dos outros. Ao mesmo tempo, a saúde mental delas está despencando e fica mais difícil sentir alguma coisa pelos outros quando se está no “modo sobrevivência”. Escrevi Unselfie para identificar estratégias comprovadas, práticas, que os pais podem usar para colocar as coisas de volta nos trilhos e criar filhos mais saudáveis e com mais compaixão.

Como a empatia beneficia diretamente as crianças?
As últimas descobertas científicas mostram que a habilidade de ser empático afeta positivamente a saúde, as finanças, traz felicidade, contribui para a satisfação que os relacionamentos proporcionam, além de aumentar a habilidade de superar adversidades no futuro. A empatia também prepara as crianças para viverem em um mundo globalizado e dá um impulso para se sair melhor na profissão. No mundo de hoje, ela traz sucesso: é isso o que eu chamo de “vantagem da empatia”. Essa virtude vai dar ao seu filho a linha que ele precisa para ter uma vida com significado, produtiva e feliz, e prosperar em um mundo complexo.

Você acha que os sentimentos estão sendo subestimados?
Sim! A empatia ainda é considerada como algo “fofo”. Não é nossa prioridade. Apesar de nossas crianças terem a habilidade de cuidar do outro, elas não saem do útero empáticas. É um talento que os pequenos precisam desenvolver e melhorar, da mesma forma que se aprende a falar uma língua estrangeira. Só que nós precisamos expandir a nossa definição de sucesso para reconhecer que empatia e compaixão são cruciais. Investimos nosso tempo para ajudar nossos filhos a conquistarem muitas coisas, mas não os ensinamos a serem humanos. Gastamos pouco tempo tentando desenvolver o lado humano deles. Cultivar a empatia nunca apareceu no topo da lista de prioridades de criar uma criança.

Então, é preciso que os pais priorizem outros aspectos na criação dos filhos?
Os pais têm um amor profundo pelos filhos e querem desesperadamente que eles sejam felizes e bem-sucedidos. Às vezes, tiramos das crianças a oportunidade de elas se verem como compassivas e cuidadoras porque as empurramos para atividades que acreditamos que contribuem para um bom desempenho acadêmico, em vez de direcioná-las para seus interesses e seus talentos naturais. Como não querermos que elas fracassem, muitas vezes nós interferimos para resolver os problemas delas. Só que resgatar nossas crianças dessa maneira acaba privando-as de desenvolverem a confiança e a coragem moral que elas vão precisar, não apenas para prosperar nesse mundo como para manterem-se abertas em relação à empatia.

Desde o lançamento do seu primeiro livro, em 1993, como você percebe que a empatia se modificou?
Uma série de sistemas de apoio que possibilitavam às crianças ativar a empatia não está mais presente em nossas vidas. Por exemplo, o tempo de brincadeiras não estruturadas (objetos que colocamos à disposição da criança para que elas inventem a sua própria brincadeira) foi drasticamente reduzido na vida delas. E brincar é uma via natural para que elas aprendam a empatia. Além disso, pais (e crianças também!) estão mais estressados. Conforme o estresse aumenta, a empatia decai, porque precisamos cuidar de nós mesmos e acabamos não considerando os outros. Ao mesmo tempo, também começamos a reverenciar demais as crianças, dando a elas “troféus” cada vez que se esforçam por alguma coisa, na esperança de que isso as faça felizes. Só que, na verdade, isso aumenta o egocentrismo e faz decair o sentimento de empatia.

Como a tecnologia tem influenciado esse comportamento tão autocêntrico?
A “alfabetização emocional” – que é aprender a identificar e entender os sentimentos – é uma habilidade crucial para desenvolver a empatia. Afinal, a criança não consegue ser solidária a alguém, identificando-se com o que essa pessoa sente, a menos que ela consiga captar o que essa pessoa está sentindo: se está triste, feliz, brava ou assustada. E a melhor ferramenta para o aprendizado da “alfabetização emocional” é o rosto humano. As crianças, hoje, ficam plugadas aos gadgets eletrônicos em média sete horas e meia por dia. Nossas crianças não aprendem a ter empatia encarando telas. Esse é o motivo pelo qual é necessário criarmos “tempos sagrados de desconexão”, quando todos os membros da família estão com os aparelhos desligados e podem se dedicar às atividades e às conversas cara a cara. Isso ajuda as crianças a aprenderem a identificar as emoções, desenvolver a empatia e fortalecer as relações.

Como as famílias podem encontrar um equilíbrio no uso da tecnologia?
Ser um bom pai é sempre encontrar equilíbrio. Eu sugiro começar fazendo uma avaliação sobre a frequência com que sua família utiliza aparelhos eletrônicos. Olhe o que está gravado no seu celular, perceba quanto tempo seus filhos ficam em frente ao computador, aos tablets, celulares e videogames. Também cheque o seu próprio comportamento digital. A partir disso, estabeleça alguns limites, que também funcionem para as crianças, e siga-os.

Você dedicou um capítulo inteiro aos livros. Como eles podem contribuir com a empatia?
Os livros têm o poder de transportar as crianças para outros mundos e transformar seus corações. Livros podem ser portas para entender outros universos e pontos de vista, ajudando nossas crianças a serem mais abertas às diferenças e cultivarem novas perspectivas. Nós sempre sentimos o que os personagens sentem. É como estar na pele deles – emocionalmente, pelo menos – nos identificando com seus desconfortos e sentindo as suas dores. Pesquisadores das Universidades de York e Toronto, no Canadá, descobriram que pessoas que leem ficção são mais capazes de compreender os outros, empatizar e entender os pontos de vista alheios do que quem não lê. E mais: adultos que leem menos ficção apresentam um comportamento menos empático. É por isso que precisamos encontrar tempo para as crianças lerem e colocá-las em contato com livros.

E como bullying se relaciona à falta de empatia?
O bullying diz respeito a desprezo e poder e é sempre unilateral. A ideia é causar intencionalmente à vítima dores físicas e emocionais. A criança que pratica essa agressão considera apenas os seus desejos e não leva em conta os sentimentos e as necessidades de quem atinge. Por isso, o melhor antídoto é a empatia. É impossível causar deliberadamente algum tipo de sofrimento a outra pessoa quando se para e pensa: “Como eu me sentiria se fosse comigo?”.

Disponível em: revistacrescer.globo.com/Criancas/Comportamento/noticia/2016/12/empatiaummundomelhordependedoseufilho


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